Seguindo aqui com a "compilação" de alguns textos que analisam as Olimpíadas/2012, a participação brasileira, as repercussões, a nossa (inexistente e pobre) cultura esportiva (na prática e nos comentários pela internet, como vemos!), segue um outro texto, de SÍRIO POSSENTI, no seu Blog do Portal Terra. Vale a leitura! Bem interessante...
http://terramagazine.terra.com.br/blogdosirio/blog/2012/08/16/por-que/
POR QUÊ? - Sírio Possenti
Eventos como as Olimpíadas são uma ocasião para compreender melhor certos aspectos de um país, especialmente de sua cultura.
Por exemplo, há aparentes contradições, algumas um pouco estranhas. A
mais óbvia, neste evento que acaba de acabar, é que o Brasil não ganhou
ouro no futebol, apesar de praticamente todos os homens praticaram este
esporte em algum momento da vida, o que forneceria uma base para o
surgimento de atletas (não é assim que se explica o alto nível do
basquete americano?). Por outro lado, três maratonistas brasileiros
ficaram entre os 15 melhores. Quem imaginaria que somos um país em que
há pessoas que se dedicam a correr provas longas, em vez de correr atrás
de uma bola?
Um dos lugares comuns mais repetidos é que esporte precisa de
investimento. Qual é o investimento em maratonistas? E no futebol?
Olimpíadas e Copa do Mundo ajudam muito a entender a imprensa. Creio
que se pôde ver como a nossa é pobre. O Brasil foi mal em muitas
competições, é certo, embora nunca tenha conquistado tantas medalhas,
por incrível que pareça. Mas o que eram aqueles caras na Record, e mesmo
os mais profissionais, como a delegação da ESPN e a dos canais por
assinatura da Globo? Torciam, enganavam, erravam em vez de informar e de
estarem informados. Todos se surpreenderam com alguns resultados, como o
de Zanetti, nas argolas, simplesmente porque nenhuma emissora se deu ao
trabalho de visitar uma vez sequer a academia em que ele treina. Quem
conhecia Zanetti, além dos parentes? E a ganhadora de ouro no judô (nem
sei mais o nome dela, ninguém a menciona, acabou!), ou mesmo a outra
que, praticamente sozinha, ganhou um bronze no pentatlo moderno? Você
sabia que existe uma competição de pentatlo moderno?
Nossas emissoras exibem campeonatos de futebol argentino, mexicano,
russo. Logo vão mostrar o japonês e o egípcio. Mas qual delas fala de
outros esportes? Ah, sim, fala, dirá o leitor. Transmite a Fórmula I e a
Fórmula Indi…
O mais grave, a meu ver, foi a volta de discursos velhos sobre o
brasileiro, sua psicologia, sua “vontade”, sua capacidade de
corresponder na hora H. Só faltou dizer que os fracassos se devem à
nossa mistura de “raças”, como se fez há décadas, quando a culpa pelos
fracassos em copas do mundo era atribuída a nosso jeitão, a nosso
complexo de viralatas – que Nelson Rodrigues em boa hora enterrou, mas
que assombra cronistas que não leem nada além dos textos dos próprios
coleguinhas.
Ah, sim: e todos culpam o governo…
A “perda” do ouro no vôlei masculino foi atribuída à incapacidade de
fechar o set definitivo… como se do outro lado da rede não houvesse
ninguém, nem aquele gigante de quase 2,20 metros, que fez mais de trinta
pontos em três sets, número nunca visto em competições deste calibre.
Mas como eram os brasileiros quando o vôlei ganhava 70% das competições?
E por que uma medalha de prata não vale nada? E se os americanos
adotassem o mesmo discurso para explicar a perda da final no vôlei
feminino exatamente para as brasileiras, que, até dias antes, eram
amaldiçoadas?
Ainda bem que fracassos e sucessos foram bem distribuídos entre
brancos e negros. Se não fossem as “perdas” dos irmãos Hipólito, de
Fabiana Murer, de Cielo e dos muitos brancos do vôlei masculino, e se
não fossem as vitórias dos irmãos do box, do vôlei feminino
multirracial, dos nada brancos do judô etc., as redes sociais estariam
cheias de puro e grosso preconceito.
Faltaram negros no time de futebol, isso sim, até porque um dos
principais jogadores desse timinho (Neymar) acha que é branco. Aliás,
nunca esperem algum sucesso dessa seleção. Jogador cuja cultura pode ser
medida pelo péssimo gosto musical (eu quero tchu, eu quero tcha) não
vai longe, exceto no seu bairro.
A propósito, Garrincha gostava de blues e de bossa nova. E diziam que era bobo…
LaboMidia
Blog do Laboratório e Observatório da Mídia Esportiva (UFSC/UFS/UFSJ)
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sábado, 18 de agosto de 2012
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
Pior do que pensava - Tostão
Replicando aqui mais uma breve crônica do Tostão... só o primeiro parágrafo já vale: em poucas linhas, uma descrição que toca na verdadeira ferida brasileira... as trocas de favores! Boa leitura e boas reflexões!
PIOR DO QUE PENSAVA - Tostão
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/tostao/1137474-pior-do-que-pensava.shtml
PIOR DO QUE PENSAVA - Tostão
Prefiro ver o Brasil melhor no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do
que ganhar mais medalhas. De qualquer maneira, se quiser evoluir, em
todas as áreas, incluindo o esporte, será necessário diminuir as
patotas, a perniciosa relação de troca de favores e colocar os mais bem
preparados e mais dignos nos cargos estratégicos.
Não basta planejar e investir. Projeto não fala, não pensa, nem tem alma.
O Brasil joga hoje, contra a Suécia, a última partida no estádio
Rasunda, onde ganhou a Copa de 1958. Recentemente, vi, em DVD, todos os
jogos, na íntegra. A seleção era melhor do que imaginei com 11 anos, ao
escutar as partidas pelo rádio. O Brasil mostrou ao mundo que era
possível unir o futebol imprevisível, descontraído e criativo com a
eficiência.
Chico Buarque, décadas atrás, em um belíssimo texto, disse que os
europeus eram os donos do campo, por ocuparem melhor os espaços, e os
brasileiros, os donos da bola, por gostarem de ficar com ela e de
tratá-la com intimidade. Hoje, o Brasil não é dono do campo nem dono da
bola.
Está pior do que pensava. Antes da Olimpíada, achei que o time, por ser
quase o principal, diferentemente de outros países, seria o grande
favorito e que nossos jovens dariam show em defesas de jogadores
desconhecidos. Enganei-me.
Contra o México, Mano errou ao colocar Alex Sandro no meio-campo,
aberto, com a função de ser secretário de Marcelo. Alex Sandro e o time
já tinham jogado mal contra a Coreia do Sul. Mano errou também ao levar
Hulk. A prioridade era mais um zagueiro ou um lateral direito. A defesa
jogou muito mal em todas as partidas.
O Brasil não tem um craque definitivo. O único com chance de ser um fora
de série é Neymar. Ainda não é. Sem craques experientes a seu lado, no
Santos e na seleção, ficará muito mais difícil para ele evoluir. Neymar
vive um momento perigoso. Deram a ele o prestígio de uma celebridade
mundial, de gênio, e também uma enorme responsabilidade. Se o Brasil não
for campeão do mundo, os mesmos que o adulam vão massacrá-lo.
A formação ineficiente e, muitas vezes, promíscua, nas categorias de
base dos clubes, e o estilo de jogar dificultam o aparecimento de
craques. Com menos craques, há menos chances de isso mudar. Mano, pelo
menos no discurso, tenta fazer alguma coisa, sem sucesso. As marcas da
mediocridade foram impregnadas na alma dos jogadores, técnicos e de
parte da imprensa.
Não adianta trocar de técnico, a não ser que surja alguém especial,
romântico e racional, profundo conhecedor de detalhes técnicos, táticos,
observador da alma humana e, ao mesmo tempo, corajoso, combativo e que
não precisa gritar, se exibir e dizer que é tudo isso. Falta ao futebol
um Zé Roberto.
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/tostao/1137474-pior-do-que-pensava.shtml
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Pior do que pensava,
Tostão
domingo, 5 de agosto de 2012
Desculpem estar "bombardeando" o blog... mas o momento é oportuno!
Só trago aqui texto do Tostão, muito interessante! Pra mim, me lembrou a prova para entrada no Grupo PET-EF/UFSC, que acabou fazendo toda diferença na minha formação, que, curiosamente, era um texto do Tostão para ser comentado. E era sobre o esporte na televisão...
Confiram...
TORCER E ENTENDER - Tostão
Na Olimpíada, tento entender todos os esportes, até badminton, mas não consigo. Compreendo apenas futebol, ou melhor, penso que compreendo. Quando tenho certeza, uma bola entra por acaso e acaba com minha pretensa sabedoria.
Não é o que pensa o espanhol Ferran Soriano, gestor empresarial e vice-presidente do Barcelona, entre 2003 e 2008. Ele é autor do ótimo livro "A Bola Não Entra Por Acaso".
Os narradores e comentaristas de televisão deveriam ser mais didáticos durante e nos intervalos das competições olímpicas. Em uma Copa do Mundo, ocorre o mesmo. Um número muito maior de pessoas que não entendem de futebol assiste aos jogos. Elas querem compreender, e não apenas torcer.
Nesta Olimpíada, há uma tentativa das televisões de discutir mais os detalhes técnicos do esporte. Mas é pouco. Não existe esse hábito na imprensa esportiva brasileira, especialmente no futebol.
Fora da Olimpíada, esses debates deveriam ser mais frequentes e aprofundados. É o que faz a Globo News, sobre economia, política e outras áreas, com a presença de ótimos profissionais. Os apresentadores são também muito bem preparados. Perguntam e debatem.
Há gente demais falando de futebol na televisão e gente de menos que entende do assunto.
Tempos atrás, havia um comentarista que tinha uma belíssima voz, que falava um ótimo português e que tinha uma grande audiência. Apenas não entendia de futebol. Para ele, independentemente dos detalhes de um jogo, as análises eram sempre as mesmas. Os times deveriam atacar mais pelos lados, avançar com mais velocidade, ser mais compactos, trocar mais passes e outras generalidades e lugares-comuns. Ele tem hoje vários seguidores na imprensa.
Trabalhei na televisão e sei como é difícil comentar uma partida ao vivo. Quando tudo parece definido, as análises já estão prontas, surge um lance inesperado, que muda a história do jogo. O comentarista, rapidamente, precisa dizer algo interessante, novo, objetivo e curto, que não atrapalhe o pouquíssimo tempo da TV. Daí, a preocupação dos analistas em não definir nada. É mais fácil e seguro.
Duro é, em uma Copa do Mundo, com a obrigação de escrever rapidamente a coluna para o jornal, com ela já elaborada durante o jogo, ter de mudar tudo porque sai um gol decisivo, na prorrogação. Ainda mais para quem escreve à mão, como eu. Um ótimo comentarista, de televisão e de jogos ao vivo, deveria ter as milhares de informações precisas do Paulo Vinícius Coelho, o olhar tático e acadêmico do Paulo Calçade, a visão crítica e incisiva do Mauro César e a capacidade de analisar todos os detalhes de um lance do Júnior.
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/tostao/1132063-torcer-e-entender.shtml
Só trago aqui texto do Tostão, muito interessante! Pra mim, me lembrou a prova para entrada no Grupo PET-EF/UFSC, que acabou fazendo toda diferença na minha formação, que, curiosamente, era um texto do Tostão para ser comentado. E era sobre o esporte na televisão...
Confiram...
TORCER E ENTENDER - Tostão
Na Olimpíada, tento entender todos os esportes, até badminton, mas não consigo. Compreendo apenas futebol, ou melhor, penso que compreendo. Quando tenho certeza, uma bola entra por acaso e acaba com minha pretensa sabedoria.
Não é o que pensa o espanhol Ferran Soriano, gestor empresarial e vice-presidente do Barcelona, entre 2003 e 2008. Ele é autor do ótimo livro "A Bola Não Entra Por Acaso".
Os narradores e comentaristas de televisão deveriam ser mais didáticos durante e nos intervalos das competições olímpicas. Em uma Copa do Mundo, ocorre o mesmo. Um número muito maior de pessoas que não entendem de futebol assiste aos jogos. Elas querem compreender, e não apenas torcer.
Nesta Olimpíada, há uma tentativa das televisões de discutir mais os detalhes técnicos do esporte. Mas é pouco. Não existe esse hábito na imprensa esportiva brasileira, especialmente no futebol.
Fora da Olimpíada, esses debates deveriam ser mais frequentes e aprofundados. É o que faz a Globo News, sobre economia, política e outras áreas, com a presença de ótimos profissionais. Os apresentadores são também muito bem preparados. Perguntam e debatem.
Há gente demais falando de futebol na televisão e gente de menos que entende do assunto.
Tempos atrás, havia um comentarista que tinha uma belíssima voz, que falava um ótimo português e que tinha uma grande audiência. Apenas não entendia de futebol. Para ele, independentemente dos detalhes de um jogo, as análises eram sempre as mesmas. Os times deveriam atacar mais pelos lados, avançar com mais velocidade, ser mais compactos, trocar mais passes e outras generalidades e lugares-comuns. Ele tem hoje vários seguidores na imprensa.
Trabalhei na televisão e sei como é difícil comentar uma partida ao vivo. Quando tudo parece definido, as análises já estão prontas, surge um lance inesperado, que muda a história do jogo. O comentarista, rapidamente, precisa dizer algo interessante, novo, objetivo e curto, que não atrapalhe o pouquíssimo tempo da TV. Daí, a preocupação dos analistas em não definir nada. É mais fácil e seguro.
Duro é, em uma Copa do Mundo, com a obrigação de escrever rapidamente a coluna para o jornal, com ela já elaborada durante o jogo, ter de mudar tudo porque sai um gol decisivo, na prorrogação. Ainda mais para quem escreve à mão, como eu. Um ótimo comentarista, de televisão e de jogos ao vivo, deveria ter as milhares de informações precisas do Paulo Vinícius Coelho, o olhar tático e acadêmico do Paulo Calçade, a visão crítica e incisiva do Mauro César e a capacidade de analisar todos os detalhes de um lance do Júnior.
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/tostao/1132063-torcer-e-entender.shtml
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