sábado, 17 de setembro de 2016

RIO 2016: O LEGADO OCULTO

Pessoas, segue abaixo um texto produzido pelos alunos da Disciplina Educação Física, Esporte e Mídia. Fiquem a vontade para os comentários, pitacos, sugestões...o debate está aberto!
Sérgio Dorenski


RIO 2016: O LEGADO OCULTO

Andreane A. de Lisboa – Comunicação Social (Áudio Visual)
Bruno Augusto M. Cavalvante - Comunicação Social (Jornalismo)
Roanna Nascimento Silva - Comunicação Social (Áudio Visual)
Tácia Suane Martins dos Santos - Serviço Social

Na arena é desfile, fora dela é exploração. No estádio é ouro, mas na favela é chumbo. Na vila é alojamento e na comunidade é remoção!
As Olimpíadas Rio 2016 fora alvo de grande engajamento político e econômico. Os investimentos em infraestrutura e urbanismo para recepção do grande evento foram exorbitantes, chegando a alcançar o valor de R$ 38,26 bilhões, dos quais 57% fora oriundo de recurso público, segundo o Instituto Ethos. O crescimento turístico disparara, a cidade recebera mais de 1,17 milhões de visitantes. De acordo com o balanço realizado pela prefeitura, cada turista desembolsara, em média, R$ 424,00 diários durante a passagem pela cidade maravilhosa. Não casualmente, o setor hoteleiro atingira a margem de 94% de ocupação. Os estabelecimentos comerciais da zona sul atingiram o crescimento de 70% da sua lucratividade, e a concessionária de metrôs municipal, por exemplo, transportara durante os jogos cerca de 13,9 milhões de passageiros (G1, 2016).
Os números da Rio 2016 saltam aos olhos nos diversos setores que a acolhera. Todavia, se o montante financeiro pode ser em números evidenciados, os danos sociais ocasionados pelo grande evento são incalculáveis. As mazelas oriundas desde a gênese do projeto até os últimos dias de competições evidenciaram o lado mais perverso do espírito olímpico.
Desde 2009, quando a cidade foi escolhida para sediar os jogos, mais de 77 mil pessoas perderam suas casas para construção da cidade olímpica e incremento na mobilidade urbana. Neste processo, a gestão pública nunca se propusera a discutir com os afetados, alternativas a estas remoções. A ação, por sua vez, configurou o maior processo de remoções da história do Rio: uma política transvestida pelo megaevento como desculpa para seguir no processo de expulsão das camadas mais pobres da população das áreas cujo interesse é restritamente empresarial.
 Ainda neste período, quando se consolidada o incremento das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs), 2.600 pessoas foram mortas por PMs nas zonas periféricas. Isto se deve não por mera casualidade, mas pela lógica da militarização do território, segunda a qual, o objetivo nunca fora a segurança dos moradores e/ou ampliação do acesso a serviços públicos, mas sim o controle dessa população pobre e negra, sempre vista como inimiga aos grandes eventos.
Não obstante, o mês que antecedera a olímpiada, concretizara, segundo a Polícia Federal, o aumento de 43% na quantidade de drogas apreendidas no Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP). A denúncia sobre o esquema Prostituição Infantil com vista para o Parque Olímpico, também pode ser mencionada como um dos legados olímpicos que poucos têm acesso, uma vez que, a grande mídia se propõe a resguardar a imagem do evento como benfeitor de atos, jamais como percussor infame. 
Se fossemos aqui, salientar a desigualdade social, o desequilíbrio ambiental, a fraudulência nos recursos, entre tantas outras questões pouco evidenciadas nas Olimpíadas, certamente, nos faltariam caracteres, além de corremos o risco de transmitir ao leitor o equívoco da culpa, uma vez que, o esporte apesar de ser centralidade dos jogos, também não passa de um intenso processo mercadológico do capital. Todavia, chamamos atenção às amostras apresentadas no texto.
Faz-se necessário, nos atentarmos ao que, de fato, move o dito “espírito olímpico” através dos nítidos reflexos que este apresenta: o investimento é público, mas lucro é privado; as obras são feitas, mas população não usufrui; a mídia silencia e não explana; a polícia não prende, só espanca; a morte é banalizada e o espetáculo aplaudido; o pobre assiste de fora e ninguém ouve seu grito. Rio 2016, os jogos da exclusão!

REFERÊNCIAS:
O mapa dos jogos da exclusão. Disponível em: <http://www.cartacapital.com.br/sociedade/o-mapa-dos-jogos-da-exclusao>. Acesso em: 02 de agosto de 2016.
O custo da Olimpíada do Rio é atualizado para R$ 38,26 bilhões. Disponível em: http://www.jogoslimpos.org.br/destaques/custo-da-olimpiada-rio-2016-e-atualizado-para-r-3826-bilhoes/. Acesso em: 02 de agosto de 2016.
 

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Guia de orientações à mídia para cobrir os Jogos Paralímpicos Rio/2016

Hoje começam os Jogos Paralímpicos Rio/2016 e ainda estamos nos familiarizando com a novidade dessa manifestação esportiva aparecendo com tanta frequência nas telas que nos cercam no cotidiano, tvs, celulares e computadores. Com a realização desta edição do maior evento esportivo mundial para pessoas com deficiência no Brasil, em específico no Rio de Janeiro, a atenção da mídia e do público enfim voltaram-se à essa população que há tanto é marginalizada na nossa sociedade. Um grupo de pessoas que são historicamente estigmatizadas como incapazes, sofridas, inúteis, e que no esporte encontrou não só um meio de reabilitação psicomotora, mas principalmente um meio de luta e ativismo pela inclusão social. É nesse sentido, considerando que boa parte do país terá o primeiro contato com o esporte paralímpico e os atletas com deficiência através do discurso midiático, tanto pela narrativa imagética como textual, que foi desenvolvido um guia de orientações à mídia brasileira de como cobrir os Jogos Paralímpicos Rio/2016 de modo a contribuir para a ruptura da imagem de coitadinhos e sofredores que comumente se tem das pessoas com deficiência. 
Baseados em documentos produzidos por instituições responsáveis pelo movimento paralímpico no contexto internacional, como os guias da Associação Paralímpica Britânica (British Paralympic Association - BPA) e o Comitê Paralímpico Internacional (International Paralympic Committee - IPC), os professores Athanasios Sakis Pappous, da Universidade de Kent, no Reino Unido, e Doralice Lange de Souza, docente da Universidade Federal do Paraná, produziram um guia para a mídia brasileira. Este guia é resultado de um projeto de pesquisa financiado pelo Newton Fund, através da Fundação Araucária, que possibilitou trazer o professor Pappous ao Brasil, ele que é referência nos estudos sobre Mídia e Esporte Paralímpico no contexto internacional. O guia produzido foi reconhecido pelo CPB e conta com a chancela da instituição para a respectiva apresentação e divulgação do mesmo junto aos órgãos da mídia nacional. Esse guia foi construído com muitos dos elementos já apresentados nos outros dois guias supracitados e recebeu algumas informações adicionais, sobretudo no que diz respeito à cobertura fotográfica do esporte e dos atletas paralímpicos. É importante observarmos que os outros guias foram produzidos na língua inglesa, por conta disso alguns termos ou expressões tiveram de ser adequados à língua portuguesa, e não diretamente traduzidos. Isso ocorreu, pois em alguns casos a tradução literal não correspondia ao real sentido empregado no português.

https://www.facebook.com/ufprtvoficial/videos/1077375432359451/
 Clique na imagem e veja matéria da UFPR TV sobre o Guia com a Prof. Dra. Doralice Souza

No guia intitulado, "Guia para a mídia: Como cobrir os Jogos Paralímpicos", os professores Pappous e Souza tomam os JP Rio/2016 como uma oportunidade única para educar o público brasileiro acerca do esporte para pessoas com deficiência e para combater preconceitos associados a este grupo de pessoas. Os autores acreditam que a mídia pode ter um papel fundamental neste sentido, adotando atitudes tais como evitar a veiculação de mensagens que reproduzem estereótipos negativos acerca de pessoas com deficiência e através da utilização de linguagem e imagens que valorizem as qualidades esportivas dos atletas. Atitudes como estas podem contribuir para ampliar a visibilidade social e trazer reconhecimento às mesmas, que em grande parte são marginalizadas ou esquecidas na sociedade. Nesse sentido, este guia para a mídia brasileira foi produzido com o objetivo de que "os jornalistas possam fornecer um retrato mais inclusivo das pessoas com deficiência durante os JP Rio 2016" (PAPPOUS; SOUZA, 2016, p. 2).
Na primeira seção do guia brasileiro são delineadas as sugestões relacionadas à construção textual das notícias acerca do esporte e dos atletas paralímpicos. A primeira questão linguística apontada é a de que deve-se colocar o atleta em primeiro plano e depois, se necessário, falar da deficiência. Ou seja, os autores sugerem que na construção das frases os jornalistas se refiram aos atletas pelo seu nome, pela sua função ou especialidade no esporte, e não pela sua deficiência. Por exemplo, "Daniel Dias ganha mais uma..." ou "Nadador brasileiro ganha mais uma...", ao invés de construir a notícia como "Deficiente físico brasileiro é multimedalhista...". Junto a isso, os autores relembram que os atletas com deficiência devem ser tratados como atletas de alto rendimento, que treinam cotidianamente e que dedicam boa parte do seu tempo se preparando esportivamente, tal como os atletas olímpicos. Portanto, o foco não deve estar nas suas deficiências ou limitações (PAPPOUS; SOUZA, 2016).
A segunda orientação textual apresentada no guia é de que a deficiência não deve ser apresentada como equivalente a sofrimento, pois os próprios atletas paralímpicos já são uma prova da capacidade e das habilidades que podem desenvolver, e das possibilidades de uma vida de conquistas e de felicidade que uma pessoa com deficiência pode ter. Nesse sentido, os autores indicam que os jornalistas evitem usar expressões tais como "sofre de", "vítima de", "afligido por". Os mesmos sugerem também que se evite agrupar as pessoas pelas suas deficiências, como "os cegos", "os deficientes", ou "os cadeirantes", e que se faça isso a partir das suas qualidades, como "os atletas", "os atletas com deficiência", "atletas em cadeiras de rodas", ou simplesmente "corredores". No bojo dessas terminologias a serem evitadas, algumas outras também são lembradas no guia, tais como "aleijado", "paralisado", "inválido", "preso/confinado em uma cadeira de rodas". Junto a isso, outros termos que seriam mais apropriados são sugeridos, como por exemplo, afirmar que o "atleta teve paralisia cerebral/um acidente", ou que o "atleta tem tetraplegia/uma amputação", ou também que o "atleta se utiliza da cadeira de rodas" (PAPPOUS; SOUZA, 2016).
Na segunda seção do guia, os autores dão orientações sobre o uso das fotos na cobertura jornalística do esporte e dos atletas paralímpicos. Reconhecendo o potencial e a velocidade com que as imagens podem emitir uma mensagem, Pappous e Souza (2016) procuram seguir orientações do IPC e do seu lema, "Spirit in Motion" (Espírito em Movimento), para indicar qual seria o formato ideal para a veiculação de fotografias e quais formas devem ser evitadas. Os autores indicam que, de modo geral, as fotos devem apresentar os atletas em ação, dentro dos espaços de competição, e as suas deficiências não devem ser escondidas, ao mesmo tempo que não precisam ser enfocadas.



De acordo com Pappous e Souza (2016), os tipos de imagens que devem ser evitados são: 1) aquelas em que os atletas estejam em poses passivas e que acabam enfocando a deficiência, pois dessa forma não se dá visibilidade às capacidades e habilidades esportivas dos mesmos; 2) fotos que enfatizem falhas ou quedas, pois já existe uma perspectiva médica de que o esporte não é uma prática indicada para pessoas com deficiência e fotos assim podem reforçar tal estigma; 3) retratos dos atletas em posições de isolamento, tristeza, escuridão e que escondam o rosto deles, devido à sensação de limitação ou de pesar que essas imagens podem trazer; 4) fotos que escondam as deficiências, pois isso não se faz necessário, visto que o objetivo da cobertura midiática do esporte paralímpico é também naturalizar visualmente para a sociedade os diferentes corpos; 5) imagens focadas nas deficiências, pois do mesmo modo que no item 4, o objetivo é naturalizar a visibilidade das deficiências, mas não que elas sejam o centro da atenção, e sim os pontos fortes e as capacidades dos corpos dos atletas; e 6) evitar fotos tiradas de cima para baixo, pois elas fazem as pessoas parecerem menores, mais frágeis e/ou dependentes (PAPPOUS; SOUZA, 2016).
Do mesmo modo que nos outros guias e nos elementos textuais desse mesmo guia brasileiro, são dadas sugestões do que seriam as maneiras mais apropriadas de veicular imagens dos atletas com deficiência. Uma delas é o ângulo da câmera no momento da fotografia, que deve estar preferencialmente na mesma altura dos olhos dos atletas, transmitindo uma perspectiva de igualdade, ou em um ângulo de baixo para cima, passando uma sensação de força ou poder do personagem da foto. A outra sugestão é sobre os elementos que devem compor a foto para promover o empoderamento dos atletas paralímpicos. São eles: 1) o espaço deve ser o de competição; 2) a roupa do atleta deve ser a esportiva; 3) a postura do atleta deve ser ativa, em disputa; 4) a expressão facial dos atletas deve ser, preferencialmente, de força; e 5) a deficiência não deve ser escondida e nem enfocada (PAPPOUS; SOUZA, 2016).
Finalizando o guia de orientações à mídia brasileira, Pappous e Souza (2016) apresentam algumas sugestões para quando os jornalistas estiverem em situação de interação com os atletas, assim como também foi feito nos guias britânicos e do IPC. O único item diferenciado que aparece nas sugestões do guia brasileiro é de que em caso de conversa/entrevista com atletas em cadeira de rodas, os jornalistas precisam verificar se estão no campo de visão dos entrevistados, de modo que eles não necessitem ficar por algum tempo olhando para cima.
Pudemos verificar que há um lastro de produções recentes de entidades esportivas paralímpicas voltadas para a mídia, demonstrando a preocupação e a importância que elas dão à cobertura midiática do movimento paralímpico. Mesmo que apresentando algumas particularidades e diferenças, os guias da BPA (2012), do IPC (2014) e de Pappous e Souza (2016) seguem a mesma linha de trabalho, que objetiva superar alguns estereótipos associados às pessoas/atletas com deficiência, representados tanto em elementos linguísticos, como em elementos imagéticos. Nesse sentido, vamos aproveitar a eminência da realização dos JP no Rio de Janeiro, em 2016, para acompanhar com o olhar crítico a produção das notícias acerca do esporte e dos atletas paralímpicos.

Bom momento paralímpico a todos,

Abraço,

Silvan Menezes dos Santos
Doutorando do Programa de Pós-graduação em Educação Física da UFPR
Membro-pesquisador do Laboratório e Observatório da Mídia Esportiva

REFERÊNCIAS

BRITISH PARALYMPIC ASSOCIATION. Guide to Reporting on Paralympic Sport. . Reino Unido: ParalympicsGB. Disponível em: <http://paralympics.org.uk/uploads/documents/imported/ParalympicsGB_Guide_to_Reporting_on_Paralympic_Sport_-_June_2012.pdf>. , 2012

INTERNATIONAL PARALYMPIC COMMITTEE. Guide to reporting on persons with an impairment. . Bonn: International Paralympic Committee, 2014. Disponível em: <https://www.paralympic.org/sites/default/files/document/141027103527844_2014_10_31+Guide+to+reporting+on+persons+with+an+impairment.pdf>

PAPPOUS, Athanasios; SOUZA, Doralice Lange De. Guia para a mídia: Como cobrir os Jogos Paralímpicos Rio 2016. Curitiba, Paraná, Brasil, 2016. Disponível em: <http://cev.org.br/comunidade/esportes-paralimpicos/debate/guia-para-a-midia-de-como-cobrir-os-jogos-paralimpicos>

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Jornal LaboMídia/UFS.35

Pessoas, mais um Jornal LaboMídia/UFS no ar!!! trazemos uma síntese do Enome...
Boa leitura


http://www.labomidia.ufsc.br/Jornal/info35.pdf

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Educação (Física) na Cultura Digital


Estamos concluindo nossa participação na oferta piloto do curso de especialização em Educação na Cultura Digital. Ontem e hoje aconteceram as apresentações dos TCCs dos cursistas do Núcleo Educação Física, orientandos dos profs. Antonio Luis Fermino, Rogério Santos Pereira e Juliano Silveira. O LaboMidia/UFSC participou desde o processo de construção da proposta do curso, da produção dos conteúdos do nosso núcleo específico e agora termina com as defesas de TCC de 10 colegas de Educação Física do estado de Santa Catarina. Vale lembrar que todo o conteúdo do curso é REA (recurso educacional aberto) e está a disposição em www.educacaonaculturadigital.mec.gov.br .



domingo, 17 de julho de 2016

A deficiência da informação esportiva na série "Eficientes" do Esporte Espetacular

  Há 52 dias de iniciarem os Jogos Paralímpicos Rio/2016, a décima quinta edição do megaevento esportivo tem sido tratada pelo Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) como um agente catalisador de mudança da ótica com que se olha as pessoas e os atletas com deficiência. O sucesso esportivo do esporte para pessoas com deficiência no Brasil neste ciclo paralímpico que encerra nos Jogos do Rio (2012-2016), trouxe visibilidade social e midiática para essa manifestação esportiva dentro do país. A sétima posição nos Jogos de Londres/2012 e o recorde de medalhas nos Jogos Parapan-americanos de Toronto/2015 (257 no total) são dois marcos dessa transformação do paralimpismo em fenômeno popular e massivo na cultura esportiva do país.
  Podemos considerar que a não transmissão televisiva da avalanche de medalhas conquistadas pela delegação brasileira nos Parapan-americanos de 2015 foi a chave para o reconhecimento popular e consequente popularização do paradesporto como objeto de consumo no país. Na ocasião, a cada dia de competição que os atletas brasileiros conquistavam inúmeras medalhas, o clamor popular nas redes sociais pela visibilidade midiática desses personagens, até então negligenciados do telespetáculo esportivo, se tornava mais forte. Exemplo disso foi que o CPB, aproveitando o movimento social comunicativo que ocorria nas redes, emplacou a hashtag, #hinotododia, que se tornou emblemática dessa virada midiática para o esporte paralímpico. Como desdobramento desse processo, os Jogos Paralímpicos, que até então eram um produto esportivo de baixo valor no mercado midiático brasileiro, virou automaticamente pauta permanente dos programas de jornalismo esportivo dos principais meios de comunicação de massa do país, tais como a Tv Globo e o seu "Jornal Nacional", e rapidamente teve seus direitos de transmissão televisiva para a edição de 2016 comprados com exclusividade pela referida emissora. Portanto, o megaevento esportivo paralímpico que está para acontecer é um marco representativo do processo dialético de popularização e midiatização do esporte de alto rendimento para pessoas com deficiência.



  Neste domingo, ao assistir o tradicional programa esportivo da rede Globo, "Esporte Espetacular", fui acometido por algumas reflexões acerca da abordagem que a emissora está se propondo a fazer do seu mais recente investimento esportivo, o esporte paralímpico. Ao lançar mais uma série de reportagens denominada de "Eficientes" (assistir aqui), dessas típicas do agendamento midiático-esportivo que acontecem as vésperas de grandes eventos esportivos, logo evidenciaram a proposta de mudança de paradigma com relação ao esporte e aos atletas paralímpicos, tirando o foco do signo linguístico, "Deficiente", para "Eficientes". Para aqueles aficionados pelo esporte e por qualquer tipo de manifestação que se desdobre dele, nada de novo na abordagem e na estruturação jornalística que os produtores da série fazem, que teve nesta primeira edição o atleta Alan Fonteles do atletismo como personagem principal. Contou-se a história de vida do velocista através de falas da família (mãe, irmã e esposa), de amigos da infância, de professores e de treinadores, recheada de choro e emoção pelas dificuldades enfrentadas por ele para chegar até a conquista da medalha de ouro nos Jogos de Londres/2012, na prova dos 200 metros rasos, vencendo o favorito e ídolo sulafricano, Oscar Pistorius. Tudo isso foi apresentado na reportagem fazendo a projeção e criando a expectativa de uma nova medalha na competição que inicia daqui a menos de dois meses. Portanto, apenas uma nova roupagem, com novos personagens que carregam consigo novos elementos de pauta como as deficiências, para uma mesma abordagem que a narrativa midiática faz com os seus produtos esportivos. Mais do mesmo. Tragédia, caridade, superação de limites, criação de expectativas, mitificação de ídolos esportivos em heróis da vida, assim como sempre se fez com os jogadores de futebol da seleção brasileira em vésperas de Copas do Mundo e com os atletas olímpicos antes de Jogos Olímpicos.



  Nesse trato com um novo produto, ainda em processo de apropriação por parte da mídia, alguns elementos concernentes ao esporte para pessoas com deficiência acabaram aparecendo de modo passageiro na construção da narrativa e me provocaram a colocar em foco de reflexão. A primeira delas é a origem da deficiência como fator possivelmente determinante para o modo como se focaliza e como se percebe a mesma. No caso do corredor, Alan Fonteles, que precisou amputar as duas pernas abaixo do joelho no 21º dia de vida por conta de uma falha congênita no desenvolvimento dos membros inferiores, a percepção dos outros e a autopercepção dele sobre a deficiência foi uma questão que chamou atenção. Para a mãe dele, por exemplo, ele realmente perdeu as pernas, pois nasceu com elas e precisou amputá-las. Para o atleta, diferentemente, ele disse não ter a sensação de ter perdido nada, pois cresceu e teve uma infância "normal" como todas as outras, mesmo sem as duas pernas. Nesse sentido, parece impossível dissociar o modo de percepção da deficiência ao modo como ela se originou, se congênita ou adquirida, e também do sujeito que a interpreta. No entanto, as orientações que instituições burocráticas do esporte paralímpico vêm dando para a mídia através de guias para se evitar expressões como "sofreu", "perdeu", "vítima de", parecem ser um importante esforço e movimento para mudança de paradigma do coitadismo em torno das pessoas com deficiência (guia britânico, guia do Comitê Internacional, guia brasileiro), mas também podem ser consideradas um preciosismo da pragmática linguística do âmbito acadêmico e esportivo que os próprios protagonistas desse cenário não se apegam e estão muito pouco preocupados, como pudemos ver nas falas da própria mãe de Alan, que em vários momentos falou do momento da "perda das pernas" pelo filho, e do próprio Alan, que a tratou o tempo inteiro como algo normal, natural.
  Outro elemento que apareceu na reportagem foi que o próprio Flavio Canto, apresentador e repórter da série, misturou Olímpico e Paralímpico ao perguntar para Fonteles como era o sentimento de ter subido a um pódio Olímpico. Essa confusão que se faz entre as duas manifestações esportivas parece que vai se perpetuar ainda por um bom tempo, sobretudo no âmbito midiático, pois o próprio movimento paralímpico iniciou o seu processo de construção e legitimação como fenômeno paralelo ao Olímpico e agora que vem tentando se colocar como manifestação esportiva separada, destituída e diferente daquela mais antiga. Por isso, inclusive, a orientação para mudança do uso da expressão Paraolímpico para Paralímpico como forma de diminuir e encerrar essa mistura e confusão com o correlato Olímpico. Vamos continuar acompanhando e ver até onde vão as comparações e as confusões que a narrativa midiática vai fazer entre as duas manifestações esportivas. Ver artigo científico sobre essa questão aqui.
  Por fim, pode parecer uma sutileza, mas a narrativa midiática da série ao apelar hiperbolicamente para os elementos afetivos e emocionais que giram em torno do esporte e dos atletas, deixa de informar sobre questões importantes para o esclarecimento da complexidade do fenômeno esportivo. Um dos assuntos da reportagem foi a dificuldade de Fonteles no momento da iniciação esportiva no atletismo com as próteses que ele tinha. Nas primeiras competições, ainda quando criança e adolescente, o atleta corria com a prótese convencional de madeira, que o machucavam nas pernas, e num dado momento um membro do CPB conseguiu e lhe deu uma prótese de fibra de carbono, específica para velocistas do atletismo adaptado. Foi depois disso que o atleta deslanchou em nível nacional e internacional, chegando ao ouro em Londres. O problema na narrativa dessa história é que perdeu-se, mais uma vez, uma ótima oportunidade para se falar dos altos custos das próteses de carbono e dos equipamentos que se usa no esporte adaptado e paralímpico. Deixa-se de falar e de problematizar um paradoxo que parece estar instalado no esporte paralímpico, que se propôs inicialmente como espaço de inclusão e de participação social para pessoas com deficiência, mas que pelas condições de competitividade e de alto rendimento que vêm se desenvolvendo, está se tornando excludente pelo alto custo dos equipamentos necessários para se chegar aos índices de classificação dos Jogos Paralímpicos.
  Enfim, são algumas questões a se pensar sobre o processo de midiatização e massificação do esporte paralímpico que está eminente. Uma ótima oportunidade para discutirmos diversidade e inclusão no plano da sociedade, tendo o esporte como objeto referente e como fenômeno da cultura contemporânea. Então, a pergunta que me segue é, ainda há tempo para termos o Esporte Paralímpico NA mídia, ou teremos assim como todas as outras manifestações esportivas midiatizadas, o Esporte Paralímpico DA mídia? A minha impressão, se é que interessa, é que a série da Globo só teve eficiência no nome, porque na abordagem e na informação continuou deficiente como sempre fez no trato com o esporte.

Seguimos,

Abraço,

Silvan