segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

WikiLeaks: o poder tem medo da internet

O episódio WikiLeaks é histórico. Nos evidencia questões que estão para além da polêmica em torno da revelação de documentos confidênciais de governos e "gafes" diplomáticas.

Nos últimos dias, a internet foi colocada na linha de frente da discussão sobre a política mundial, a ponto de Julian Paul Assange, criador do site WikiLeaks, ser considerado o inimigo nº 2 dos EUA, atrás apenas de Osama Bin Laden. Ao misterioso terrorista saudita são atribuídas as ordens de explodir embaixadas americanas e matar cerca de 3000 pessoas nos ataques de 11 de setembro de 2001. Mas as armas do também misterioso Julian Paul Assange, cujos mandatos de prisão foram decretados mundo afora (e que está preso acusado de transar sem preservativo, o que é crime na Suécia), são outras. Sem bombas, o WikiLeaks causou alvoroço explicitando aos governos a força da internet como um "espaço público".

Sob a perspectiva kantiana, que inaugura a noção moderna de "espaço público", este está associado à ideia de usar a razão livre e publicamente, expor as opiniões e submetê-las à apreciação do juízo tanto estético como político (e é óbvio que nenhum governo quer que seus documentos secretos sejam expostos a um juízo no espaço público global).

Mais recentemente, Habermas considera que o espaço público designa o lugar de formação das opiniões e das vontades políticas que garantem a legitimidade do poder. Ora, ao submeter à prova do exame público da razão documentos confidenciais do governo americano, é essa legitimidade do poder que é abalada. Uma legitimidade tão cara à manutenção dos Estados e dos seus aliados, legitimidade indispensável para sustentar os inescrupulosos jogos de interesse cujas cartas não são postas na mesa.

As fronteiras entre o espaço público e o privado foram fragmentadas, tornaram-se permeáveis, diluíram-se (e há quem diga que elas irão desaparecer em breve). O certo é que espaço público e espaço físico não mais coincidem. O primeiro se libertou das amarras do segundo, ganhou as mídias, adentrou a rede digital, penetrou nos celulares, aumentou o número e o volume das vozes que formam opinião e compõem o debate político internacional, nacional, partidário; mas também foi ampliado o debate político do cotidiano, da vida comum, das relações que construímos uns com os outros.

A questão merece uma discussão mais profunda e abrangente, sob diferentes perspectivas. O que podemos aprender com o episódio Wikileaks? As ações do site são criminosas? Qual o impacto da publicação de informações "secretas" em diferentes setores da sociedade? Esse espaço público ampliado pelas tecnologias digitais conseguirá superar as acusações de promover não um engajamento, mas apenas um envolvimento superficial e efêmero das pessoas?

Com o acontecimento ainda em curso, destaco duas questões: 1. O episódio WikiLeaks traz força à afirmação de que a relação entre indivíduo e sociedade, fundante nas Ciências Sociais, está em acelerada reconfiguração impulsionada pelas tecnologias digitais. 2- O sociólogo Manuel Castells, talvez um dos mais lúcidos pensadores dessa nossa atual "sociedade em rede", tem plena razão ao anunciar. já há alguns anos, que "o poder tem medo da internet".

2 comentários:

Giovani disse...

Rogério,

Irretocável, lúcida e muito bem-vinda tua reflexão sobre o WikiLeaks.
Já há alguns dias eu me ensaiava para escrever sobre o tema aqui, mas a velocidade dos desdobramentos terminava sempre me deixando "travado".
Tua postagem veio abrir o debate, ao qual me permito agregar um elemento a mais: como interpretar o movimento de centenas de hackers que se associaram para "castigar" as instituições públicas (governos) e do mundo financeiro (cartões de crédito)que haviam patrocinado a caça ao Paul Assange e ao WikiLeaks, derrubando os seus sites?
Vamos conversando...

Rogério Santos Pereira disse...

Muito bem lembrado, Gio. Os ativistas hackers deixaram claro que estão em guerra, uma "guerra de dados". E a causa é instigante: manter a internet livre e aberta para todos, longe da censura. É mais uma demonstração de força contra o poder tradicional de governos e financeiras. Fico pensando na força que esses ativistas teriam ao enfrentar, por exemplo,os grandes conglomerados midiáticos, acostumados a monopólios e privilégios, que tentam migrar seus insaciáveis tentáculos para a internet.