Quando recebi o e-mail convite para participar da mesa
redonda sobre Mídia-educação no I Lincom
,
não hesitei um segundo em aceitar a tarefa e nem cinco minutos, em meio ao
(dito) instantâneo retorno da correspondência digital (um pequeno ritual que
envolve abrir a caixa para a resposta, escrever a mensagem, ler, reler,
conferir com a ferramenta de correção, confirmar o destinatário e, ufa!, enviar
a mensagem) para replicar a solicitação. Mas demorei alguns dias para entender
o porquê desta rapidez. E após longas e perniciosas indagações, algumas noites
de insônia e uma coleta intensa de opiniões sobre “como participar de uma mesa
redonda”, a resposta que tanto procurava apareceu em um instante.
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O caminho para Caiobá e Matinhos de balsa |
Alcançar os detalhes em meio a correria
diária e encontrar o Eldorado perdido
são, hoje, tarefas análogas. E no ambiente acadêmico (ok, não só nele), falar do
tempo virou um “mantra”. Convenhamos, nada mais esquizoide do que um tema ascético
para sacralizar um momento de inconformidade coletiva relacionada ao tempo, ou a
falta dele. Mas ao (re)converter o sentido, eis que o significado cintila como
o sol espelhado no balanço marítimo do canal. Dias de dúvidas e questionamentos
resolvidos em um suspiro (o primeiro de muitos). Era o anúncio de que aquele
momento prometia agradáveis reflexões.
Logo imagino ter conseguido localizar
algumas razões para desconfiar das lamúrias sobre a falta de tempo. Em
apenas um dia vivi as descobertas e desalentos de um curioso menino que me
convidou a assistir, nas tardes de sua infância, aos seus filmes trash favoritos; dancei, cantei e me entreguei
às batidas adornadas pelas imagens dos videoclipes preferidos de um jovem
inquieto e festivo, que me escancarou as portas de sua casa, já assoberbada de
convidados ilustres (livros, filmes, discos, brinquedos, lembranças, paisagens);
e viajei das gélidas sensações de uma madrugada desértica ao topo de cordilheiras
nevadas, sensações retratadas e recontadas a cada acesso. Pouca coisa?
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Entrada da UFPR Litoral |
Também entendi que a acolhida intervém
positivamente nos processos (nesses tempos em que executar é mais do que de experienciar,
a necessidade de afirmação desfaz a redundância), e retoma seu sentido de arte
e arrebatamento. Na tenda, que traz dentro de si o mar que nos envolve, vejo o amparo
da plateia contemplativa e por isso mesmo admirada. E o tempo mais uma vez se dilata,
tal o vislumbrar do horizonte emoldurado. É o olhar que em um só movimento percebe
o andar ladino de um cachorro ambientado, varre expressões e enxerga nelas um
agrado, no momento exato que se vê em certa delícia. Naquelas céleres duas
horas e meia, a percepção de estar diante do que o sábio professor apontou como
o que de melhor existe na academia, que em meio à aceleração do tempo, por
vezes esquecemos: o prazer da "gratuidade" do debate
.
Afinal, acabo por perceber que
uma possível relatividade temporal pode estar ligada ao afeto, da qual se
referiu o aluno ao questionar a possibilidade afetiva na relação com as mídias.
E penso que estar ou sentir-se afetado admite também o sentido de ser atingido.
Uma relação que faz o corpo mexer, tal a toada repetida ao infinito, a tremura
das mãos no momento da exposição, o aperto no estômago nas intermináveis noites
de insônia. Afetação que precede a ação. Na relação com as mídias (ou, dizem
alguns, por causa delas) o tempo corre. Mas se ali o tempo incide, também com elas
o corpo responde, participa. E só pude percebê-lo porque vivi. E vivendo,
senti, conheci.
“À medida que ocorrem alterações no seu corpo, você
fica sabendo de sua existência e pode acompanhar continuamente sua evolução.
Apercebe-se de mudanças no estado corporal e segue seu desenrolar durante
segundos ou minutos. Esse processo de acompanhamento contínuo, essa experiência
do que o corpo está fazendo enquanto pensamentos sobre conteúdos específicos continuam
a desenrolar-se, é a essência daquilo que chamo sentimento.” (DAMÁSIO, 2012, p.
140)
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Uma das "salas" do Messa |
Seminário de Linguagens, Mídias e
Educação, 6 a 10/05, UFPR Litoral. Mesa realizada no dia 09 com a participação
de Lyana de Miranda, Rodrigo Ferrari e Gilson Cruz, sob a acolhida e coordenação de Fábio
Messa.