sábado, 11 de maio de 2013

Sobre o tempo (Memórias de uma mesa redonda)


Quando recebi o e-mail convite para participar da mesa redonda sobre Mídia-educação no I Lincom[1], não hesitei um segundo em aceitar a tarefa e nem cinco minutos, em meio ao (dito) instantâneo retorno da correspondência digital (um pequeno ritual que envolve abrir a caixa para a resposta, escrever a mensagem, ler, reler, conferir com a ferramenta de correção, confirmar o destinatário e, ufa!, enviar a mensagem) para replicar a solicitação. Mas demorei alguns dias para entender o porquê desta rapidez. E após longas e perniciosas indagações, algumas noites de insônia e uma coleta intensa de opiniões sobre “como participar de uma mesa redonda”, a resposta que tanto procurava apareceu em um instante.

O caminho para Caiobá e Matinhos de balsa
Alcançar os detalhes em meio a correria diária e encontrar o Eldorado perdido são, hoje, tarefas análogas. E no ambiente acadêmico (ok, não só nele), falar do tempo virou um “mantra”. Convenhamos, nada mais esquizoide do que um tema ascético para sacralizar um momento de inconformidade coletiva relacionada ao tempo, ou a falta dele. Mas ao (re)converter o sentido, eis que o significado cintila como o sol espelhado no balanço marítimo do canal. Dias de dúvidas e questionamentos resolvidos em um suspiro (o primeiro de muitos). Era o anúncio de que aquele momento prometia agradáveis reflexões.

Logo imagino ter conseguido localizar algumas razões para desconfiar das lamúrias sobre a falta de tempo. Em apenas um dia vivi as descobertas e desalentos de um curioso menino que me convidou a assistir, nas tardes de sua infância, aos seus filmes trash favoritos; dancei, cantei e me entreguei às batidas adornadas pelas imagens dos videoclipes preferidos de um jovem inquieto e festivo, que me escancarou as portas de sua casa, já assoberbada de convidados ilustres (livros, filmes, discos, brinquedos, lembranças, paisagens); e viajei das gélidas sensações de uma madrugada desértica ao topo de cordilheiras nevadas, sensações retratadas e recontadas a cada acesso. Pouca coisa?

Entrada da UFPR Litoral
Também entendi que a acolhida intervém positivamente nos processos (nesses tempos em que executar é mais do que de experienciar, a necessidade de afirmação desfaz a redundância), e retoma seu sentido de arte e arrebatamento. Na tenda, que traz dentro de si o mar que nos envolve, vejo o amparo da plateia contemplativa e por isso mesmo admirada. E o tempo mais uma vez se dilata, tal o vislumbrar do horizonte emoldurado. É o olhar que em um só movimento percebe o andar ladino de um cachorro ambientado, varre expressões e enxerga nelas um agrado, no momento exato que se vê em certa delícia. Naquelas céleres duas horas e meia, a percepção de estar diante do que o sábio professor apontou como o que de melhor existe na academia, que em meio à aceleração do tempo, por vezes esquecemos: o prazer da "gratuidade" do debate[2].

Afinal, acabo por perceber que uma possível relatividade temporal pode estar ligada ao afeto, da qual se referiu o aluno ao questionar a possibilidade afetiva na relação com as mídias. E penso que estar ou sentir-se afetado admite também o sentido de ser atingido. Uma relação que faz o corpo mexer, tal a toada repetida ao infinito, a tremura das mãos no momento da exposição, o aperto no estômago nas intermináveis noites de insônia. Afetação que precede a ação. Na relação com as mídias (ou, dizem alguns, por causa delas) o tempo corre. Mas se ali o tempo incide, também com elas o corpo responde, participa. E só pude percebê-lo porque vivi. E vivendo, senti, conheci.

“À medida que ocorrem alterações no seu corpo, você fica sabendo de sua existência e pode acompanhar continuamente sua evolução. Apercebe-se de mudanças no estado corporal e segue seu desenrolar durante segundos ou minutos. Esse processo de acompanhamento contínuo, essa experiência do que o corpo está fazendo enquanto pensamentos sobre conteúdos específicos continuam a desenrolar-se, é a essência daquilo que chamo sentimento.” (DAMÁSIO, 2012, p. 140)


Uma das "salas" do Messa



[1] Seminário de Linguagens, Mídias e Educação, 6 a 10/05, UFPR Litoral. Mesa realizada no dia 09 com a participação de Lyana de Miranda, Rodrigo Ferrari e Gilson Cruz, sob a acolhida e coordenação de Fábio Messa.

[2] Fala de Paulo Fenterseifer, em aula realizada em abril de 2013, na UFSC.

7 comentários:

Blog CicloPoiesis disse...

Participar dessa mesa foi, antes de mais nada, um aprendizado. O tempo nos pressionou e dilatou, a experiência fluiu. Dr. Messa, nos acolheu como irmão e na sabedoria das alturas, com vista para o mar, o que fica de recordação é que confiar é preciso! Lyana e Gilson, além a amigos são dois professores que eu admiro muito o trabalho. Obrigado pela oportunidade e o que ficou, foi a vontade de viver mais essas experiências.

Rogério Santos Pereira disse...

Que lindo exercício de amor à escritura, de ligação do texto com a vida. Corpo, alteridade, afeto são questões/dimensões indispensáveis para pensarmos pedagogicamente as mídias na educação.

Cristiano Mezzaroba disse...

Opa! Que texto-relato legal, Lyana!!! parabéns!!! Parabéns ao Messa pelo evento... a vc, Ferrari e Gilson pela brilhante participação, quem os conhece, não tem dúvidas disso!!!

Fábio Messa disse...

Quando liguei ao motorista na 5a feira pela manhã, pra saber se ele já tinha chegado em Floripa pra pegar os meus convidados, e ele respondeu que os três já estavam a bordo do Trans-Litoral, cheguei a arrepiar e me bateu até uma vontade de chorar...pois estava a se concretizar um momento tão esperado...em meio a todos os imprevistos e correrias de um evento (aqui do nosso curso, o primeiro sutiã...inesquecível). Depois dessas magníficas palavras da Lyana, o que resta dizer é que eles deram uma chacoalhada na UFPR Litoral, deram um banho de qualidade no evento, foi, sem dúvida alguma, a melhor de todas as noites do evento, com um teor informativo riquíssimo e em discursos complementares, diversificados e refinadíssimos...Enquanto eu manipulava os prezzis dos apresentadores, olhava para eles falando, e sentia um jaca-orgulho, embora palavra alguma (agora nesse exato instante) consegue dar conta pra descrever e nomear o que eu sentia. Só tenho mesmo a agradecê-los por tudo...e certamente vou querer amarrá-los para próximas e mais próximas...e estes somos nós, as crias do Dr. Gigio, o nosso grande guru. abração a todos!!!

Giovani Pires disse...

Pode ser chavão, mas eu... eu já sabia! Ahahaha!
Uma mesa com estes tres feras, mediados por um cara tambem fera, só podia ser uma baita experiência para todos.
Estão de parabéns, caros amigos. E vamos em frente, outros desafios virão!

Silvan Menezes disse...

Belo texto-relato Lya. Parabéns ao trio e ao mentor desse encontro, Jaca-Messa.

Sara disse...

quão bom é estar descansado em tais lugares, contanto que você tem tempo e dinheiro para fazer eu acho que deveria, espero terminar de trabalhar em restaurantes em perdizes e fazê-lo.