sábado, 10 de maio de 2014

Um olhar ao acaso ao agendamento nada despretensioso: um dia de "Felipão" na nossa vida a partir da Globo

O texto que segue aqui é apenas um exercício de tratar no blog de algumas reflexões um tanto inevitáveis depois de acompanhar um dia vendo televisão - mais especificamente a Rede Globo - numa noite que culminou com o Globo Repórter que tratou do "nosso comandante" Felipão!
Antecipo que o texto não tem pretensões acadêmicas apesar de utilizar um conceito acadêmico, neste caso, o conceito de agendamento midiático-esportivo (já tratado por mim, empiricamente, na minha monografia, na minha dissertação e em várias outras pesquisas).

Acredito que seja parte do cotidiano de todos/as nós ver propagandas em que o protagonista que vende determinados produtos seja Luís Felipe Scolari, técnico da seleção brasileira que tentará o hexacampeonato logo mais, na Copa no Brasil. Durante o dia de hoje, sexta-feira, dia 09 de maio, constatei, num simples exercício de "ver tv", várias propagandas em que ele foi a figura-chave de determinados produtos. Lembro-me aqui das propagandas da Sadia, dos anúncios de supermercados como Big e Nacional, dos carros da Pegeout. Confesso que não lembro se já havia visto um programa que se dedica a questões de informações científicas como é o Globo Repórter que abordasse uma figura esportiva, como foi o programa da noite de sexta-feira,que em síntese, dedicou-se a mostrar a trajetória de "nosso" técnico, seu jeito, seu estilo, seus gostos, sua história de vida, seus amigos, suas conquistas, sua maneira de trabalho como comandante da seleção brasileira... apenas um lado - vitorioso - de uma figura humana, o que já permite pensar no aspecto de 'mitificação' do sujeito.

Mas, lembremos, pouco mais de um mês para a Copa... tudo é válido para mobilizar as atenções e a torcida dos brasileiros e brasileiras... portanto, nada tão "neutro" assim...

Se o conceito de agendamento - agenda-setting - nos permite pensar na maneira como a mídia opera a pauta do dia, a partir não só de seus interesses, mas interligados com o próprio contexto social, cultural, político, econômico, esportivo, vemos aí um excelente exemplo de constatar a maneira explicita como somos mobilizados a acompanhar e a enquadrar certas questões em nosso cotidiano. Não bastasse a própria função de técnico da seleção brasileira de futebol, além de todos anúncios publicitários que vinculam sua imagem, Felipão passou a ter, nesses últimos dias, uma ênfase midiática talvez pouco vista/percebida/utilizada. Há nem dois dias, a divulgação dos jogadores convocados. No dia seguinte, um programa dedicado a ele.

No primeiro bloco, como tudo começou. A origem de seu trabalho no interior gaúcho, sua relação com o primeiro emprego, com a Educação Física, com a escola. No segundo bloco, de maneira muito resumida, a origem do futebol na Inglaterra (sem nenhuma explicação sócio-histórica para tal, como se fosse um surgimento ao acaso) e sua vinda para  o nosso país, onde, em pouco tempo, se tornou uma paixão, inclusive mostrando países improváveis apaixonados pelo nosso "estilo" futebolístico.  Entre um bloco e outro, propagandas do Big e do Nacional (redes de mercados), propaganda que utilizaram o verde-amarelo, como dos Correios... e também propaganda da Centauro, onde o primeiro produto veiculado foi... a camiseta da seleção brasileira.
Ainda pensando na ideia de personificação, que se liga à maneira como o agendamento constrói seu discurso no jogo de imagens, sons, texto, Neymar como o atleta que segundo Felipão fará muito sucesso nos próximos 10 anos. Seria o garoto da Copa? Desde que o Brasil vença a Copa... senão...

Um giro pelo Brasil e alguns estádios da Copa são mostrados... a grama... O Castelão em Fortaleza, o Mineirão em BH, o Beira-Rio em Porto Alegre e o Maracanã no RJ. Faz parte do agendamento, sutilmente, ir acostumando os telespectadores (público, consumidores?) aos locais onde os acontecimentos se realizarão!

E mais um bloco e volta-se ao discurso construído ainda em 2002, quando, naquele ano, a seleção brasileira, também comandada por Felipão, pouco acreditada, vence a Copa do Mundo do Japão/Coreía, no slogan da "Família Scolari", momento este em que o programa dedica-se a mostrar a relação entre os jogadores, a amizade e a proximidade entre eles.

Finaliza-se, e aí podemos pensar no simbolismo da cena - como nos alerta John Thompson - com a imagem da seleção, na última Copa das Confederações em que o Brasil venceu a favorita Espanha, jogadores perfilados, cantando o hino nacional juntamente com o público no estádio...

Não está em questão, aqui, se Felipão está certo ou não em ser garoto-propaganda...
Não está em questão ser contra ou a favor do esporte (acho que nem  há mais espaço para tal questão...)
Não está em questão gostar ou não gostar do Brasil, da "nossa seleção" (o tempo do "ame-o" ou "deixe-o" já passou, apesar que há pouco mais de um mês lembramos dos acontecimentos da ditadura e vimos que há muita gente com saudades dela...
Não está em questão ser contra ou a favor da Copa, afinal, ela está aí, ela vai acontecer...
Não está em questão considerar apenas uma mera manipulação midiática ou um público completamente passivo a tudo que está acontecendo (acredito que isso já está claro que não ocorre assim, numa relação direta, generalizada, linear...)

O que está em jogo é perceber essa movimentação que agrega mídia, esporte, política, sociedade. Entender - identificar, perceber, refletir - nas múltiplas formas que aos poucos vamos sendo tomados, como brasileiros, como torcedores, quase nunca como cidadãos, por um sentimento positivo (construído, não natural, como tentam nos fazer engolir!) de que é necessário acompanhar tudo sobre o evento, conhecer seus personagens, seus locais, suas curiosidades... e consumir produtos aos quais vinculam valores diversos, como saúde/qualidade de vida, como estilo de vida, sucesso, performance etc. A Copa logo mais estará aí, temos condições de identificar tudo isso ou cairemos, mais uma vez, nesse sentimento coletivo de abdução total ao fenômeno que a cada 4 anos, por meio do futebol, nos consome, nos agrega e nos torna um só? A que fins chegamos ao final de uma Copa, como nação, como povo? O que realmente ganhamos ao sediar uma Copa? Ao mostrarmos nosso "amor" por nosso país quando lá dentro de um estádio está em jogo uma auto-estima nacional/coletiva? É possível, será, aprender alguma coisa nesse processo todo?

4 comentários:

Sergio Dorenski disse...

parabéns Cris belo texto. Será leitura obrigatória dos alunos da Disciplina EDF, Esporte e Mídia e caiu bem numa fase que estamos discutindo essas questões...
Não resta dúvida de como se constrói uma imagem (sujeito) pela mídia...veja, que após a convocação ele estava na bancada do JN ao lado de Poeta e Bonner, algo raro na emissora. Além disso era tema no Globo Esporte no outro dia...sua emoção etc...
Talvez esta seja a sacada da mídia/política, apostar numa imagem como a dele, assim como foi com Dunga que assumiu a seleção após o "fracasso". Ela era o típico símbolo de força nacional. Penso que após as manifestações e também com as novas "ameaças" apostar numa imagem que possa unificar e amenizar as contradições é a estratégia...

Ítalo Libório disse...

Achei muito interessante o texto, ao meu ver o senhor trouxe alguns pontos que realmente são esquecidos como por exemplo a situação de que não está em jogo não gostar do Brasil, da "nossa seleção", me pergunto sempre:Como seria o Brasil se pessoas procurassem se mobilizar ou fizessem trabalhos de conscientização a respeito de uma possível reforma na forma de se ver a política brasileira? Realmente é mais fácil criticar a copa ao invés de procurar melhorias para o país, porque o problema em si não é a copa, o problema é a forma como ela vem sendo realizada. Outro fatores vem a tona, mas enfim, parabéns pelo texto professor.

Sergio Dorenski disse...

Aqui reunidos com a turma de Edf. Esporte e Mídia - Gardênia; Kenani; Akellyson; Brenda Oliveira e Brenda Karoline; Ana Luíza; Lais - em tempo real - Próximo interlocutores do Blog - Refletimos sobre o texto e segundo Gardênia a retrospectiva da vida do Felipão realizada pela TV , foi uma estratégia da mídia para aproximá-lo das pessoas e isso criar um sentimento de "nacionalismo" e intimidade (Lais). Além disso, desconstruir uma imagem de ranzinza que fora construída pela própria mídia (Akellyson)

Cristiano Mezzaroba disse...

Sérgio e pessoal que cursa a disciplina agora! Legal os comentários de vcs! Penso que está aí um bom "objeto de pesquisa", principalmente de monografia, momento mais oportuno pra isso não há. A retórica imagética e discursiva do uso de Felipão em tudo que veremos a partir da semana que vem, com a seleção reunida e se "preparando para o hexa". Enfim, veremos... boas reflexões e bons estudos!