sábado, 10 de outubro de 2009

AGENDAMENTO OU PROFECIA?

Fico pensando nos deslizamentos de sentidos já decorrentes desde a primeira difusão do primeiro enunciado jornalístico sobre a, então, conquista da condição de lócus das Olimpíadas 2016, no Rio de Janeiro e os seus mais recentes desdobramentos - intertextos, crônicas, charges, paráfrases, paródias, citações, referências, digressões históricas, menções, alusões, presságios, cogitações, promoções, rifas, book-makers etc, enfim tudo o que já foi produzido discursivamente sobre o tema. Já presumo que estamos não apenas diante do mito midiático da semana, nem do mês, nem do ano, mas dos próximos sete anos...

Este será um dos agendamentos mais longos da história, pois delimita temporalmente um evento, que o faz soar não só como uma mudança de paradigma social, mas como um agente catalisador para a unção das boas e providenciais ações humanas.
Estamos diante de um dilema: será que estaremos durante este tempo sob persuasão química ou subconsciente?

Ilustro a indagação de hoje com o pensamento de Aldous Huxley, no seu Regresso ao Admirável Mundo Novo (1959), um livro de ensaios, no qual retomava algumas das "profecias" do seu romance Admirável Mundo Novo (1932). Segundo ele, essas "profecias" estavam a ser realizadas graças ao progresso científico, no que diz respeito à manipulação da vontade de seres humanos.
Na narrativa, ele apresenta um futuro em que as pessoas eram pré-condicionadas biologicamente e condicionadas psicologicamente a viverem em harmonia com as leis e regras sociais, dentro de uma sociedade organizada por castas.
Além de ficção, Huxley não fazia ensaísmo apenas para registrar experiências alucinógenas, como em As Portas da Percepção (1950), mas retomava suas teses proféticas sobre comportamento e controle social, ou seja, postulava e constatava o que já poderia estar acontecendo com a sociedade, por causa do avanço da ciência e da tecnologia, deixando legados, seqüelas etc.
E assim prosseguiu, dissertando sobre as artes de vender, distinguindo propaganda na ditadura de propaganda na democracia (em que associava os processos de construção do discurso propagandístico às teorias de Pavlov e Skinner); também tratou desses dois tipos de persuasão: a química e a subconsciente... culminando então no atroz capítulo sobre Lavagem Cerebral.

A noção de subconsciente não coincide nem com a concepção psicanalítica e nem com a neurofisiológica...era algo à parte, talvez sinônimo de subjacente ou subliminar...
A noção de persuasão química era algo mais interessante ainda, pois essa química, a que o autor nomeava, não era algo que se referisse ao orgânico ou inorgânico, mas uma metáfora desse todo. Exemplificava com o uso da droga Soma que, na sua ficção, substituía o uísque, o tabaco, a heroína proibida e a cocaína de contrabando. Dizia que "os bebedores de Soma sentiam alguns efeitos benéficos, os seus corpos robusteciam-se, os seus corações enchiam-se de ardor, de alegria e entusiasmo, os seus espíritos enchiam-se de lucidez e, numa experiência imediata da vida eterna, recebiam a certeza da imortalidade."

Mas o Soma era uma droga perigosa, os mortais vulgares podiam até morrer, devido à grande dosagem. Enfim, a experiência causava uma felicidade e tal luminosidade no sujeito que, ao beber, a condição de sua absorção era encarada como um grande privilégio. Se ingerida em pequenas doses, dava uma sensação de felicidade; em doses maiores, fazia-os terem visões e, se engolissem três pílulas, cairíam, após alguns minutos, num sono refrigerante. No romance de Huxley, o hábito de tomar Soma não era um vício privado; era uma instituição política, era a verdadeira essência da Vida, da Liberdade e da Busca da Felicidade garantidas pela Declaração de Direitos.
Então podemos entender o Soma como um signo figurativo que, aos olhos de hoje, nessa “sociedade da informação e da globalização”, é o seu próprio conducto. Ou seja, a persuasão química a que Huxley assistia (ou previa...) era essa a que hoje nós nos sujeitamos pelo conducto midiático. Não é o mesmo tipo de substância, e também o modo de absorção é outro. Mesmo assim, vamos chamá-lo dessa forma. Eco trataria de guerrilha semiológica e falação, Barthes em fabulação e narrativa...

E agora, como amarrar Huxley e o Soma à produção midiática que agenda as Olimpíadas 2016... elementos da ficção profética e fragmentos do discurso midiático???

Pensem nisso esta semana, pois na próxima coluna TODOS TOMAREMOS SOMA!! tentarei mostrar algumas amarras possíveis...

Por enquanto é só, pessoal,
ou como nos créditos finais dos episódios seriados,
to be continued...


Jaca abraço a todos

7 comentários:

Anônimo disse...

Se em toda Copa do Mundo e em toda Olimpíada fora do Brasil já somos obrigados (pelo agendamento midiático) a nos manter ligados aos eventos, imaginem com os dois aqui. E um seguido do outro. Mas não tem problema não, como o Pan rendeu vários artigos e livros numa visão mais crítica, a Copa e a Olimpíada renderão mais. O espaço para o pensar sobre esses eventos também será muito grande. Claro que é uma guerra quase injusta, mas não esqueçamos que até agora os EUA não dominou o Afeganistão muito menos o Iraque.
richard

Lyana de Miranda disse...

Além de comemorar os dois grandes eventos, como bons Deltas e Ipsilones, vamos à próxima campanha nacional, sugerida pelo Macaco Simão na Folha de hoje: Copa 2014 e Rio 2016 - Vamos enforcar 2015!
Agora me dê licença que vou para a fila da ração de soma!

Fábio Messa disse...

é isso mesmo, moçada, teremos pasto pra ruminar por muito tempo e que renderá muitas publicações...

ótimo Lyaníssima. Vc bem sabe toda a história do Soma...eh eh eh

beijaço

Jaca-Mor

Daniel Minuzzi de Souza disse...

Grande postagem e grande comentário.
Trabalho não falta, teremos muita soma.
hehe.
Abraço

mazilock disse...

Necessario se faz,então,estarmos agendados nas observações em relação ao arrazoado midiático,visando efetivarmos críticas pertinentes para intervenções práticas

Diego S. Mendes disse...

Grande Messa...o paradoxo é fantástico, o que esse condutor chamado Soma nos subtrai???

Fábio Messa disse...

para dividir tarefas em como ruminar todo esse pasto, seria preciso determinar ou por tipos de veículos ou por gêneros discursivos, pra depois pensar no que formular para intervir praticamente...
O soma não subtrai exatamente, ele substitui, consola...preeenche...evita que que a gente se dê conta, nos faz pensar uniformemente, pra não haver conflitos...
o Soma é a droga que serve pra entorpecer e nos fornecer referenciais, paradigmas...etc.

Jacaço-abraço...