
Ah, o grande atleta, de quem é a tarefa de formá-lo? Às vésperas do Brasil sediar uma Copa do Mundo de Futebol (2014) e os Jogos Olímpicos (Rio 2016) – dois acontecimentos que, pelo grande porte, são denominados de megaeventos esportivos – essa pergunta vem à pauta e influencia diretamente a Educação Física escolar. Não podemos negar a importância do esporte no contexto contemporâneo, bem como o fascínio que ele exerce sobre todos nós, seja pelos exemplos de superação, pela beleza estética dos atletas em movimento, ou pelas cifras bilionárias que esse fenômeno cultural movimenta. Porém, não podemos ignorar que o esporte possui diferentes dimensões, que ele pode ser vivenciado de inúmeras maneiras, e que é preciso refletir sobre a sua inserção na vida de cada um de nós.
É ai que entra o personagem Pateta (por favor, não estou dizendo que somos patetas, mas que o Pateta pode nos ajudar a pensar o esporte). Se for atribuído à Educação Física escolar o papel de formar atletas, teremos que, via de regra, selecionar os “melhores”, os mais altos, os mais ágeis, os mais fortes, os mais precisos, os mais determinados, os “anti-patetas”. Ora, eles são quantos em uma sala, uma escola, uma cidade, um país? Quantos serão alçados à glória esportiva? E quantos ficarão de fora? O preço da seleção nas escolas, sua consequência direta e imediata, é a exclusão dos que não são super-homens e super-mulheres das aulas de Educação Física. A maioria de nós, professores de Educação Física, dos nossos alunos, filhos, enfim, a maioria da população, é imperfeita, frágil, imprecisa. Não somos velozes como os deuses olímpicos, não temos uma coordenação motora de precisão informática.
A verdade é gostamos de praticar, de assistir, de falar de esporte. E temos o direito de aprendê-lo no seu sentido mais amplo, compreendendo suas regras, técnicas, táticas, exigências físicas, mas também sua inserção na sociedade e na economia, sua relação com as mídias, as tensões e contradições que permeiam o esporte de alto nível, a possibilidade da sua inserção nos tempos de lazer. O ensino do esporte deve fazer com que nós, de uma maneira crítica, possamos nos tornar todos “Patetas”, soltando gargalhadas e descobrindo como esse grande fenômeno contemporâneo pode ser divertido ao mesmo tempo em que nos traz valiosos ensinamentos sobre a complexidade do movimento humano, e, porque não, da própria vida.
Crente de que o mundo precisa de mais Patetas (um caricato exemplar dos jacas-libertários), esse texto foi escrito, sem pretensões acadêmicas, a pedido de um grupo dos meus alunos do curso de Licenciatura em Educação Física que estão editando um jornal.